quarta-feira, 8 de julho de 2015

O aniversário de uma desilusão

O aniversário de uma desilusão

Observada em retrospectiva – com um ano de distância emocional – a derrota por 7×1 para a Alemanha não foi horrível apenas pelo placar em si. Nem pelo tamanho da humilhação a que o Brasil foi submetido dentro de sua própria casa em uma semifinal de Copa do Mundo. O pior de tudo, pior mesmo, foi o sentimento de traição com que o resultado nos oprimiu. Soa quase surreal dizer isso agora, exatos 365 dias depois do desastre, mas nós acreditávamos de verdade que um time mal treinado, sem o principal craque e nitadamente desequilibrado seria capaz de vencer o Mundial. Ou pelo menos derrotar a forte Alemanha. A fé era real. Saímos de nossos trabalhos mais cedo, reunimos a família e os amigos, vestimos alegremente a camisa verde e amarela e pintamos nossos rostos. Só esquecemos de tirar a venda dos olhos. Estávamos cegos – e, como todos os cegos de amor, iludidos pelo sentimento, fomos traídos. Irremediável e cruelmente traídos. Hoje, a maior tragédia do nosso futebol completa um ano. Mas está longe, muito longe, de ser cicatrizada.
A partida não aconteceu apenas no Mineirão, mas no Brasil todo. Cada cidadão, em qualquer pedaço de chão dentro do país, estava envolvido no jogo. O cenário se desenhava favorável para a Seleção. David Luiz, capitão na ausência de Thiago Silva, levou a 10 de Neymar para cantar o hino. Mesmo o desfalque do craque, machucado contra a Colômbia, parecia positivo. Fortaleceria o emocional dos outros. A mística da camisa mais pesada da história do futebol superaria a realidade. Não é necessário dizer que o que aconteceu foi o contrário. E se ele estivesse em campo? Se Thiago Silva não houvesse tomado o segundo cartão amarelo no último jogo? Se Felipão optasse por Willian no lugar de Bernard? As perguntas não servem senão para martelar as nossas cabeças. Jamais serão respondidas.
Porque o que aconteceu dentro de campo não autoriza dúvidas. Não foi uma morte lenta, do tipo que permite lutar até o limite das forças. Foi ataque fulminante. Num instante, a Seleção estava de pé, motivada pelo hino à capela cantado nas arquibancadas. Empatava por 0×0. No seguinte, pá-pum, estava no chão, nocauteada na sala de casa, diante do silêncio incrédulo de sua torcida. Cinco a zero. Isso mesmo: c-i-n-c-o a z-e-r-o. No primeiro tempo. Cinco gols sofridos em 18 minutos. Não deu nem para sentir raiva. O estado de torpor coletivo inviabilizou a fúria. A frustração e o choro, que começaram no Mineirão e se espalharam pelo país, ocuparam o lugar da revolta. Nem o mais argentino dos brasileiros imaginava algo parecido. Nem o mais patriota dos brasileiros manteve a esperança. Estávamos liquidados.
Na volta para o segundo tempo, Felipão – o arquiteto da catástrofe – tirou Fernandinho e Hulk para colocar Ramires e Paulinho. Queria arrumar o time. Não mais para tentar a vitória. Apenas para evitar uma humilhação maior. Nem isso conseguiu. Os alemães tiraram o pé, admitiram mais tarde que aliviaram o ritmo, mas ainda assim aumentaram a vergonha para sete. Schürle saiu da reserva, não aderiu ao cavalheirismo dos colegas, anotou mais dois gols e alcançou o número que não sairá da história da seleção: Sete. Sete. Sete. Sete. Sete. Sete. Sete.
No último minuto, o meia Oscar ainda marcou o gol de honra do futebol brasileiro. Honra? Que honra? Ela nos foi levada junto com a goleada. Como também nos foram tiradas a esperança, a fé, a confiança, a certeza de que ainda erámos os melhores. Ficamos a sós com a nossa dor, nos penitenciando por termos acreditado em uma falsa ilusão.

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